Santuário das Almas

O homem faz o seu mundo, ou é esmagado pelos mundos feitos por outros.

24 Abril 2007

Divagações (I)

Certamente minha memória falha quando o melhor momento da minha vida ameaça aparecer, no dístico de dois minutos por detrás de um par de olhos cálidos, um sabor de inocência e um sorriso de anjo. A máquina-circuito dentro da blindagem do meu crânio começa a revolucionar numa marcha menos medíocre e eu pareço estar embebedado, não pela ênfase do álcool, mas pela desinência do momento.

Acordo, estranho a paisagem: volto a dormir.

Detesto-me por detestar a graça do usufruir da vida, como quem inadvertidamente se esquece do compromisso de viver e morrer - e de que a intermissão entre ambos não mais são que irrelevâncias materiais. A necessidade extremada da negação, irrestrita e incondicional, do que se vê com os olhos e que reconota à semi-loucura dessa ignomínia que chamei de lucidez, me torna um cadáver de alto apreço, um defunto de honra no baile das desgraças públicas e das mundaneidades feitas comodismos - enquanto que, se me nego a pertinência a esse mundo, faço-me sumir por não ter nenhum outro no qual embarcar.

Passo para a faixa de música seguinte, da mesma forma com que minha cabeça passa para a perturbação seguinte. Quem vos escreve vislumbra mal a reminiscência do poente, mas é incapaz de conjecturar uma alternativa para a alvorada. Há alguma saída?

Aos que pensam, oram e sonham: no quê pensam, a quem oram, com o quê sonham?

E no que predominou por meses a fio a prece persistente do silêncio, alguns perguntaram-me com insistência: "Para quem comunga co'a alma quando escreve, por que o fazes tão pouco?"

Pois que em verdade vos digo: bem mais do que o necessário, ainda menos do que obsessivamente, o que vos chega públicas são páginas das mais inefáveis e crípticas do meu ser arraigado na doença da ética paranóica dos goetheanos. Significado: toneladas de papiro em tinta de chumbo derretendo à maldade do tempo, sem que haja fantasmas mais para apreciá-los.

É triste. Às vezes, porém, sinto-me imensamente feliz por ser assim.

11 Março 2007

O Dia Setenta

Porque não me fazem bem as notícias e os anseios. Porque não me faz bem o amor ou a ausência. Porque todas as aproximações da distância colapsam no escuro da falta de foco.

Vim contando o tempo nos dedos e completei ambas as mãos.

Dizei-me o que vos é idílico, e eu vos direi o que me é funéreo.

Acabou a colheita daquilo que plantamos.
É hora de aproveitar.

O Dia Setenta.

Passo Um: A Palavra.

Dez vezes o odor cancro do domingo sem sol.
Uma fração do verão nos íngremes do tempo.
Uma dúzia de meias dúzias que induzem velhice.

Passo Dois: O Ritmo.

No dia setenta
Deidade intenta
Em dores ostenta
Por se arranjar
O fim do carmim
Do sangue, assim,
Sabor alecrim
Da vida tirar!
Vos peço, meu pai,
Daqui me tirai
A faca aqui cai
Sobre a jugular
Do homem que sonha
Com a morte visonha
E a pouca vergonha
Em se envergonhar.

Setenta são dias
Se tenta por dias
Relógio contar,
Que cá posso eu
Se tento sequer
No intento de ser
Sempre secular?
Quase irregular
Infame matéria
Flutua sidérea
No senso pretenso
Incauto disperso
Do dedo anelar
Um vorme suspenso
Na umbra repente
Intenso suspense
Do horrorizar
Quem chega repensa
Sua fome por nexo
Sem dor e sem sexo
Sem cor nem luar...

Que cá posso eu
Se tento sequer
No intento de ser
Sempre secular?

Passo Três: A Sentença.

E se estilhaçou a esperança em duas vezes três vezes cinco vezes três partes, que são setenta sem sete nem dez, ao mesmo tempo em que mais do que mil vezes mil lágrimas caíram do céu por uma hora, apenas uma numa miríade de umas quais feitas à tortura silente da areia que pertinente escorre...

E foi nesta derradeira e melindrosa hora que a conjugação de "desestímulo" conotou a "fatalidade", no preciso momento fátuo em que a crença no espírito sem estirpe do homem serviu de última batida do relógio para o ultimato do dia setenta.

Ruiu o minuto e, com ele, a paz.

Passo Quatro: A Clausura.

Foi no dia setenta que Deus se convenceu
Que Sua obra havia mergulhado no abismo.



Lúgubre e solitário, Ele chorou.

20 Setembro 2006

Dos Ossos do Escriba

Escrever é uma droga. Escrever é como usar ópio... é um vício, uma ilusão de que sua angústia é aliviada quando você a deposita em forma de palavra. É fingir que alguém ouve enquanto você fala (ninguém ouve enquanto você fala); é acalmar os demônios de si-próprio com cantigas milagrosas e assumir que eles nunca mais voltarão a azucrinar...

Razão pela qual o Texto é sempre doente, tempestuoso; idéia cósmica das vãs perturbações vespertinas - que seja, desimporta; martelo bate na bigorna e o cunho se assenta; a pestilência se funde e toma forma de caractere embriagado, demente, balbuciando absurdos sobre o normal; bolhas ocres de expressão desesperada brotam da pele ígnea do espírito do escritor, que agora morre para nascer ontem, logo depois de amanhã, alguns sonhos atrasado com relação ao mundo que gira de tão já - e dão-lhe as costas, e fecham-lhe os ouvidos, e torcem-lhe o olhar... derreter o cérebro, sacudir os ossos, borbulhar o sangue!

(Chamam isso de "ossos do ofício".)

Pois que vos digo, fiéis do Santuário, cabe aqui uma reflexão aos que lêem e escrevem: fazei-o sem medo e sem vergonha, fazei-o como fazeis sexo - com uma paixão fanática, com uma fúria intensa, com muito tesão e suor, com uma franqueza explícita, crua e nua... e pelo menos cinco vezes por semana!

Pois que em verdade vos digo: ...é muito bom!

Letrar é comungar com a alma; é apaziguar toda a dor do tédio de viver.

In Memorian

Na segunda feira desta semana, num dia dezoito ensolarado de um setembro indiferente, lançou-se à redentora luz da eternidade o homem e cidadão Everaldo Dolensi Júnior, de idade não divulgada, aluno do curso de História, obliterado por vontade própria num suicídio que chocou toda a comunidade da Unicamp. Esta nota é apenas uma menção de luto e, com ela, ponho dois crisântemos ao túmulo de um indivíduo cuja morte fora covardemente excluída de toda a mídia e gratuitamente comprada pela falsa comoção e pena de um público incompreendido e incompreensível, anestesiado por uma sociedade violentada por si própria, esterilizado por um mundo de plástico cuja melhor comoção é circo de uma platéia de desfigurados quase-humanos...

Por um minuto de plena paz, e uma efígie à lembrança de mais um anônimo que se entrega, meus mais sinceros pesares a amigos e parentes, e votos de boa fé aos que ainda caminham; que esta nota sirva de monumento franco à memória do referido, e ao consolo de todo aquele que, próximo ou distante, assim precisar...

Sem mais, e em grande virtude... até que se prove o contrário.

03 Setembro 2006

Dimensão: Guernica

Não há esperança nas convenções sociais.

Quer dizer, não que isso seja novidade. Crer no contrário é admitir que o senso comum é sensato, paradoxalmente, e isto é impalpável: definitivo, tal o é.

Não há esperança nas bases nem na cúpula; não há futuro na guerra ou na paz; não há razão na ciência nem na arte. A crítica se fez errada: o mundo que a ampara e sustenta não existe mais (ou nunca existiu); aqui, enquanto demônios insanos correm pelas ruas, crianças malcriadas se divertem com fusões nucleares e batatas transgênicas, e trogloditas incestuam crias alcoolizadas de si próprios numa Guernica de pernas para o ar, vista através de uma lente corrompida por excesso de sapiência...

Cármico, terroroso. Curvem a balança da fúria para o lado da insânia e vocês terão o século XXI com muito mais realismo do que nunca!

Não obstante, na empreitada a caminho da própria desecração conseguimos fortunas enormes, tamanho é o labor em cima desse propósito maior. Nossos trinta anos individuais de automutilação hão de nos trazer vívidas lembranças de nossa sagacidade - principalmente quando estivermos na mesa de cirurgia removendo o fígado sodomizado ou um naco de nosso pulmão podre... ou chorando as injustiças de nunca termos encontrado o par ideal.

"Oh, eu era jovem." A mais confortável e pobre desculpa para dar-se o direito de ser incrivelmente estúpido e esquivar-se da culpa resultante em ter enterrado o futuro próprio e alheio debaixo de uma pilha de misérias. Jung explica? Eu dou risada.

Mas vede lá: falácia. Dir-se-á: para quê tamanha ortodoxia? Afinal, se os dias são finitos e finitos são os dias, quero banhar-me nas águas límpidas porque tudo vale a pena se a alma não é pequena, não? Depois das águas puras, se sou a mais baixa das criaturas, ao menos passei além da dor, já que é no perigo e no abismo que Deus refletiu o céu... não? Sinta-se sórdido!

Que a flor da juventude murche é uma tautologia, a sensação de fim dos tempos não me abandona. E não são os tempos meus ou seus. Cara, vem cá e fala sério, deixa a tua ilusão patética de felicidade de lado e olha à tua volta, olha lá fora pela janela. Olha e me diz o que vê - se é que ainda tem olhos para ver! O quanto falsear tranqüilidade para o mundo fará com que ele suprima o teu inoculado desespero em não ser expurgado dele? O quanto fingir amor, felicidade ou zelo preenche o vazio de no fundo se ter uma existência estéril, motivada apenas por prazeres fúteis e diversões nímias?

Feche os olhos para não ver: Triste de quem é feliz - vive porque a vida dura!, ha, eu que o diga!

Jesus, que foi o primeiro hippie e também o primeiro emo, provavelmente concordaria comigo.

Você não?

Stand your ground this is what we are fighting for
For our spirit and laws and ways
Cry havoc and let slip the dogs of war
For heaven or hell we shall not wait
Shall I think of honour as lies?
Or lament it's aged slow demise?
Shall I stand as a total stranger
On this day in this stone chamber?


VNV Nation - Honour
Praise the Fallen (1999)

22 Julho 2006

Fim de Noite

Para quem não foi no Morrison ontem ver o cover do Pink Floyd, perdeu. Quer dizer, não que eu mesmo dê tanta importância a isso, afinal, não sou fã de Pink Floyd (para a surpresa de muitos!), no entanto confesso: foi bacana. Os caras realmente destroem. Valeu a experiência.

Mas, ora, o que conta na verdade, como diz um amigo meu, é a aventura. Não só isso, o que conta é "estar com a gangue", se me entendem. Não importa quando, onde, como ou mesmo se iremos chegar, o que importa é que vamos juntos... O que é um cliché bem emo, mas, enfim, transmite a idéia.

Por falar nisso, legal mesmo foi depois do show, quando mais uma vez fiquei vadiando pelas ruas frias de São Paulo às quatro da manhã... dessa vez com uma companhia diferente, contudo. Tomei um café vanilla e bati um papo com o Samuel, que trombou conosco numa padoca qualquer da região... "Cêis também tavam no Morrison?". O cara é muito True, quase uma lenda urbana. Discutimos sobre música, estilos, mídia e mercado até o sol raiar (e o metrô voltar a funcionar!); coisa que em si já paga toda a viagem. Experiências como essas nos mostram que, de fato, há muita gente aí fora que nos surpreenderia se assim déssemos a oportunidade, e que não conhecemos nada, nem ninguém, daquilo que a suposição falaciosa de "sociedade" nos faz fingir demonstrar. Lá fora há sim, um Brasil apto, cidadão, crítico, sapiente - ou ao menos diferente do convencional -, que só existe para quem o procura... ou tem a sorte de descobri-lo no acaso. Para o desespero do preconceito predominante, a prova cabal de que "conversar" não precisa ter "jeito certo" para superar a hierarquia das panelas e dos nichos sociais.

Enfim...

...

E, que diabos... você fez falta, pequena. Você realmente fez falta. Descobri que é uma droga ouvir "I Wish You Were Here" sozinho, sem você, e de fato sentir que a música fala por mim... ainda que tenha sido melhor ouvir a versão original do que a versão depressiva do Radiohead; talvez eu não resistisse ao momento se assim tivesse sido.

Acontece. É a vida.

PS: Só para constar, hoje à tarde uma cãibra quase rachou minha canela direita. Vou mancar por três dias... malditas bananas transgênicas!

23 Maio 2006

Infonóia

E porque, mais uma vez, como nada nunca acontece ao acaso, eis que do fundo do átrio a Palavra retorna, porque ela sempre retorna e ela sempre é sábia. Pois aquele que galga as mais altas montanhas ainda ri de todas as tragédias - lúdicas ou sérias -, e nem por isso deixa de acompanhar periodicamente uma vertente do "I've been on Google" sob todas as relevâncias indignas de admissão. É notícia!

E porque é itinerante, é guturalmente óbvio e evidentemente sensacional. Recentemente fundada a convenção-partido do truísmo informativo que se propõe a implacavelmente buscar a verdade num escopo extramundial, a rede de contatos oficializada já constitui um grafo deveras não-planar de milhões de vértices uniformemente distribuídos à homogeneidade do globo com pelo menos 86% das arestas colapsadas em clusteres de redundâncias cruelmente necessárias para a estabilidade do todo; os seus grandes constructos de produção/aquisição/processamento de dados trabalham dia e noite ininterruptamente para alimentar a incomensurável cadeia de protocolos de distribuição de informação enlatada, pasteurizada, esterilizada e pré-cozida para facilitar a digestão e assimilação orgânica por parte dos consumidores; as armas utilizadas na guerra contra a desimportância variam desde pequenos percentuais esparsos numa propaganda política na televisão a fluxos intermináveis de diarréia informativa vomitadas aos galões industriais pelos modernos sistemas de broadcasting, RSS feeding, newslettering e diversas outras tecnologias que hoje operam como apêndices monstruosos da máquina-utilidade-pública do disponibilismo, esta reiterada como arqui-inimiga do revés da ignorância e louvada como o próprio Messias na esperança de que cure a cancerígena decadência intelectual dos dias modernos. Já não medindo esforços nem munição para a tudo e a todos iluminar, o ideal de tornar disponível os fatos, fatores e causas de toda e qualquer ocorrência num mundo globalizado e evoluído se concretiza num princípio fisiocrático de laissez-faire metodicamente calculado, no qual o próprio "conhecimento", em se tornar totalmente disseminável, também se transforma em uma arma litúrgica na mão do povo para proteger-se a si mesmo contra qualquer ação intrusiva de um possível replicante de qualquer facção guerrilheira-terrorista moderna (passível de eliminação sumária) com fins de retardar o "desenvolvimento social" ao absurdamente questionar a veracidade dos fatos com etcéteras e "veja bens" tendenciosos; e, claro, isto não pode acontecer de maneira alguma...

Blablabla...

"Exagero"; você me diz. "Precisão"; eu caracterizo melhor.

17 Maio 2006

O Silêncio do Descaso

Quando o comodismo impera, o medo dá a palavra de ordem. Num mundo no qual "solidariedade" é apenas um hobby de madames de paróquia, "cinismo" passa a ser um truísmo só contestável pelo tédio, e "hipocrisia" é não só uma regra de conduta, mas uma própria re-racionalização da ética, no melhor dos costumes hedonistas e burgueses. Ao laconismo quase religioso predominante, discussões patéticas sobre política e corrupção tomam conta da mesa de conversa da hora do almoço, saciando a cota de "assunto sério" do dia (ao mesmo tempo em que se misturam comentários sobre mulheres, futebol e sexo), aparentemente cumprindo com as lições de casa de um livro barato de auto-ajuda em know-how social. A crítica vira esporte de luxo de socialites e debutantes em geral; a literatura é o best-seller de uma prostituta ascendente qualquer; a política é o jogo de bajulações, oposições e aliados costumeiro, como numa partida de Banco Imobiliário. À boçalidade das coisas mundanas, os mais nobres Seres Humanos reduzem-se a macacos pelados irracionais, cheios de preconceitos e complexos, movidos pelo prazer e pelo desejo imediatista, como chacais no cio, como urubus procurando carniça...

Com relação aos últimos conflitos na capital (e aparentemente também no interior) entre o crime organizado e a polícia (desorganizada), me limito a comentar: é muito divertido ver como a maioria acha isso surpreendente e aterrorizante, como se a gravidade da situação fosse novidade. Por que, talvez? Mais divertido ainda é nos ver correndo como um bando de formigas fugindo de um formigueiro em chamas - completamente indefesos, irrelevantes, impotentes - ao aparecerem algumas viaturas policiais ou coisa do gênero. É divertidíssimo.

Quando eu era mais jovem, eu achava que as idéias decadentistas dos filósofos do século XIX eram pensamentos meramente localizados à realidade daquele tempo e fundamentados na crítica e no impacto crescente das sociedades em mutação. A idéia da "supressão social" não parecia se estender à modernidade. A tão falada décadence nietzscheana era só motivo de pompa para alguns intelectuais de plantão. Ao observar o agora, contudo, a depressão contínua e o colapso das sociedades parecem ser tão óbvios que chegam a ponto de serem considerados tautológicos - dir-se-á argumentáveis. Hoje considero com veemente resistência os "veja bens" e raramente levo em conta qualquer coisa dita em horário nobre ou com palavras com mais de treze letras; é uma espécie de preservação moral. É como "brincar de apocalipse": de forma tática e militarizada, a "desconstrução da realidade" agora é realizada com um preparo intenso e dedicação fanática, fazendo da manobra não apenas uma mera reclamação revoltada, mas sim uma forma de arte, uma forma de ofício, uma forma de religião.

Mas, como eu dizia, é curiosíssimo ver no jornal a notícia dos tantos mortos, seguida de alguma coisa a respeito do Iraque, seguida então da listagem de convocados para a Copa. E logo depois a novela! Mereço-nos a razão, contudo: evidentemente, enquanto não colocarem fogo em ônibus, matarem policiais, espalharem o medo ou mesmo "atrapalharem" de alguma maneira a rotina de cada um, de fato não iremos perceber que a situação é um pouco mais séria do que aquilo que meia dúzia de comentários indignados numa matéria de jornal faz parecer. Enquanto não tivermos nossas casas destroçadas por bombas ou precisarmos comer a carne crua dos nossos próprios pais para sobreviver, a guerra só vai ser um entretenimento hollywoodiano romantizado, a violência transformada em espetáculo, o estupro feito arte para rirmos e chorarmos sob a mesma inutilidade estúpida e desprovida de significado: a diversão do sangue e do gládio. Enquanto o desespero da morte não morder na bunda, o suicídio vai parecer sempre uma atitude tida por grotesca e absurda - sim! -, atribuível apenas a loucos - mas ainda assim louvada por góticos adolescentóides e mal-amados em geral. A prática diz: sentir na pele é sempre diferente.

Mas, enfim. É ano de Copa! Quem será que ganha o Brasileirão? Esse Bush é mesmo um canalha! Será que o Lula não sabia de nada? E esse PCC então, são uns desgraçados! Você viu o que a Júlia fez no último capítulo? Reparou nos peitões daquela menina na secretaria? Skol Beats nesse domingo, woohoo!

Falemos de tudo, exceto qualquer coisa. Preocupemo-nos não: parece ser bem melhor.

03 Maio 2006

O Dia em que o Físico de Partículas Visitou a Rainha de Copas

O artigo de todo-luxo do homem humano: a parametafísica anti-lógica do não-estocástico contra-inexercício pós-epistemológico, ad hoc, ipsis verbis, "amor" [sic]. Erro de inferência dezoito-pi número quatro quadrado triângulo passional eqüilátero dimensão azimute iota.

Certo.

Agora eu estou errado e está todo mundo falando a Grande Verdade Descomunal, aquela cujos profetas dos altos círculos hipocráticos jamais ousaram descobrir.

Certo.

Creio que isso só possa ter sido uma aproximação infeliz de pi para vinte e dois sétimos, nenhum oitavo abaixo, quase aproximadamente maior que três.

15 Abril 2006

Sonhos de Areia

Porque é no dizer do adeus
Que se reconhece o tedioso ou terrível fato
De que nada é duradouro
E tudo é transitório,
Passageiro.

Claro, não que seja fácil.
Se fosse não teria graça.

Claro, não que eu quisesse graça.

Quando a falta fizer falta eu vou ter certeza de que a entropia vive.
E vou lembrar e ouvir o pulso bater denovo, e o sangue,
E aí eu me sentirei humano novamente.

A única injusta eternidade é a lembrança.

Fui ao jardim, colhi uma rosa;
Fui ao sonho, colhi um paraíso...
Toquei-lhe a pétala - que mimosa
Doçura do meu anjinho, este sorriso...


Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo da natureza, não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...


A quem nunca irá ler a contracapa desse livro.

30 Março 2006

Legado dos Vinte

Meu aniversário foi exatamente há uma semana atrás. Completei vinte... mas não tive muito tempo para comemorar. Dia todo ocupado; cotidiano suicida. "Como é o certo de ser."

Não. Nem de todo, tudo. Nunca um aniversário me pareceu tão "diferente"; nunca dei importância demais a essas datas. E também não há razão para que dessa vez fosse diferente. As poucas coisas que têm razão de ser são bem menos do que as que não têm; isso me deixa perplexo.

"Parabéns p'ra você..."

Olhei para trás e contei quantos inimigos acumulei em uma década de consciência. Muitos indiferentes e algumas juras de morte; alguns em dívida, outros em fúria. Olhei para frente, mas nada vi: a mortalha era espessa demais. Tateei o solo e percebi que era presente... há algumas, mas consideradas, mãos a me cumprimentar.
Recolhi num baú todo o legado de uma finita existência e percebi que o montante que guardava era maior que o quanto podia carregar...

"Nesta data querida..."

Contudo, sobreviver até os vinte em meio a essa selva de concreto e aço é motivo de orgulho para o melhor dos guerreiros; tantos que caem sem perceber e tantos que não percebem quando caídos estão. Os muitos grandes ínfimos que se confortam ao chão. Os excepcionais...
Olhei para o lado e vi que os poucos que me acompanharam estão felizes, nobres, videntes. "Vamos de mãos dadas"...
Tenho saudade de quem não verei mais. Ainda me recordo dos nomes e dos rostos; tenho saudades dos "meus oito anos" e de quem esteve comigo neles. Eu não me esqueço... todos eles se somaram para convergir no que me sei presente agora.
Eu não me esqueço...

"Muitas felicidades..."

Sim! Todas elas, de uma vez só, como num orgasmo espiritual!
Há dez anos atrás eu certamente não estava esperando passar os últimos segundos da minha segunda década numa sala de universidade, mas, enfim... acreditar que no ano 2000 estaríamos todos andando em carros voadores era apenas uma crença romântica!
Arrependo-me de inúmeras oportunidades que não aproveitei, por medo ou ignorância. E hoje me encontro mais completo por justamente tê-las perdido: a felicidade se fez na ausência do fato e no posterior destilar do significado que não existiu...

"Muitos anos de vida."

Os necessários, nenhum ou quase todos, ou menos... mas que façam jus a uma existência de significado... concreta e preciosa.

Para o futuro, o legado dos vinte que conjugo a mim mesmo agora como a herança de uma infância qualquer.

18 Fevereiro 2006

Viva a Sociedade Produtiva!

Devido aos poucos mas significativos pedidos que recebi, posto-lhes cá o comentário que fiz no Kase Blog, do grande Doodie, em fevereiro deste ano. Peço para que comentem aqui o que for estritamente pertinente ao que eu disse. Tudo isso surgiu depois de um dia fervoroso, numa semana repleta de desesperos, à mesma noite na qual li a pérola que me fez parir este desatino. Um grito de jovial rebeldia a reverberar pelos átrios deste Templo.
Peço encarecidamente que leiam também o post original (de 30 Jan 2006: não há permalinks ativados!); ainda que ambos os textos sejam leitura delongosa, não deixa de ser interessante ao pensamento ácido.


Viva a Sociedade Produtiva!
A civilização contemporânea invariavelmente tornou-se, por evolução ou involução, apenas uma reformulação rudimentar da sua antiga imagem paleolítica de sobrevivência do mais forte, apenas adaptada ao novo ambiente mecânico dessa pré-ordem que estabeleceu-se como 'correto, pacífico e duradouro'. O importante não é nascer, trabalhar e morrer como a totalidade da população vive - o importante é que um indivíduo arbitrário em meio a essa população esteja satisfeito com esse padrão e, se possível, o almeje como extremo ideal de vida, deixando de lado qualquer questionamento que possa violar essa contradição. Floreamentos (não menos dúbios, pode-se dizer) como 'honestidade' e 'felicidade' são meras falácias ideológicas feitas às insinuações contra a ignorância naturalmente instaurada, mantida e incentivada pela mídia e pelo senso comum, à extrema náusea daquilo que se concebe como 'imperfeição humana'. A perfeição, por outro lado, tomou a forma mais de uma grande obsessão fútil, generalizada, qualificável em aspectos menores como 'ter a melhor bunda' ou 'ter o carro do ano', ao invés de permanecer como a antiga forma de exprimir a limitação do raciocínio analítico ou intuitivo. Uma idiossincrasia levada para o mau gosto da comodidade intelectual.

A visão cínica de um mundo cujo sentido da própria existência é vulgarmente vivenciado num cerco competitivo, no qual a fama vale mais que o mérito e a competência é substituída pela reputação, não é de surpreender quando releva-se o fato que desde o primórdio - e à parte qualquer conjectura de caráter (pseudo)científico - um indivíduo humano é intrinsecamente mais importante para si próprio do que qualquer outra coisa ao seu redor. O caráter de dependência social se dá apenas por exclusão racional da impossibilidade de sobreviver sozinho num ambiente hostil. Curiosamente, as mesmas reações instintivo-emocionais de eras passadas parecem se repetir no moderno como se pouca ou nenhuma real evolução, ao menos das faculdades mentais de autocontrole, houvesse acontecido. De fato, é indiferente: arrisco dizer que nenhuma dessas características são ou serão de auxílio para um cidadão-homem-indivíduo que sinonimiza 'felicidade' como 'prazer', acima de qualquer outra coisa. Neste sentido, a filosofia deixa de ser uma arte científica e passa a ser uma reportagem de dez minutos no Fantástico.

E como se não bastasse o absurdo da própria futilidade individual, ainda conta-se com a presença da sociedade e suas dependências identicamente desprovidas de significado, sempre ironizadas pelo cliché político do 'desenvolvimento, segurança e riqueza'. Como se desenvolvimento, segurança e riqueza não fossem formas patéticas de raciocínio circular. No mais veemente presente, da mesma maneira, as novas armas dessa 'guerrilha de virtudes' são os grandes desejos humanos - remasterizados numa versão 'diet' do dogmatismo religioso do primeiro milênio para acomodar uma sociedade 'desenvolvimentista, pacífica, versada em cultura rica, firmada em bases concretas e abençoada por Deus'. Mais do que um efeito colateral da implementação (às pressas) do capitalismo financeiro num mundo em guerra e do advento da industrialização como forma básica de produção, a comercialização dos desejos, sentimentos e emoções passa a ser um abuso contra a sã consciência humana perante a ausência de malícia ao ponto de compreensão, i.e., por mais corrupto (alguns diriam sábio) que um homem pode ser, não está apto a competir contra a 'inocência inoculada' na carótida de uma boa mais-que-informativa propaganda, um anestésico e viril discurso político ou uma 'magnum opus' nas telas do cinema, trazendo cultura e diversão a todos. (Todos?)

E com isso resolveu-se o maior empecilho para a aceitação existencial, a maior pergunta ontológica de todos os tempos foi respondida. Qual o sentido da vida? Muito simples, 'ser feliz'. Concordarão comigo negros e brancos, mulheres e homens, artistas e políticos, padres e filósofos, revolucionários e reacionários. De fato, assim tem sido desde que o primeiro neurônio fez a primeira sinapse num encéfalo primata. E para sustentar ainda mais esse truísmo do 'mundo evoluído' como inegável obra do histórico labor humano - como num pacote 'dois por um' -, conseguir 'ser feliz' está mais fácil do que nunca esteve, é mais simples do que jamais fora antes. Afinal, hoje em dia compra-se a felicidade, ganha-se o amor, conquista-se a família, consome-se harmonia enlatada num CD da Enya. A beleza está acessível na próxima edição da Caras, num batom que a Gisele usa, numa porra de silicone enfiada na bunda. O amor está nos belos casais viris e perfeitos, nas lindas famílias da novela das oito, nos perfeitos jovens enamorados na fila do cinema. A conquista se dá na resolução de desafios grandiosos como comprar um carro, ascender profissionalmente, resolver dilemas familiares de grandíssima importância. A harmonia, a felicidade, a tranqüilidade, a amizade, a beleza, o amor, tudo; todos esses sentimentos e desejos humanos podem ser comprados embrulhados em sacolas Gold ou folhas-de-flandres vulgo "lata de ervilhas", pela Internet ou pelo número de telefone, ou simplesmente na banca de jornais mais próxima, como se fosse um bem de posse transitável, um objeto de consumo, um luxo patético, de valor monetário, debitável no crédito ou na promissória, acumulável num contrato vitalício de 'existência corrente' e expansível na amortização do montante de 'vida'.

Surpreendente ou não, algumas experiências no alheio deixaram à observação fatos curiosos, cientista que sou. Se o amor é simplesmente um par de belos olhos e palavras poéticas num cartão (confeccionado em série) junto a flores de plástico (ou mesmo numa animação em Flash!), o que é da juventude promíscua que se diverte em montar casinhos de paróquia ao estilo Malhação para preencherem pedaços vazios de seus egos complexados, traumatizados, vencidos pela vida de tão cedo? Se a beleza são receitas de boa forma dadas por especialistas de um inner-circle elitista, o que são essas tendências 'desesperatistas' em perfurar a carne, alterar apêndices, tomar remédios, submeter-se a cirurgias plásticas e sacrificar a saúde, retraduzindo o desejo de receber atenção em uma forma bárbara de obsessão pelo espelho? Se o intelecto se estabelece na formação e educação graduada nos níveis de ensino 'culturalmente estáveis', fodamental-mérdio-superior, como num jogo infantil de RPG, por que usar gerundismos, citar fatos lidos na Super Interessante do mês e ler livros de auto-ajuda se torna exemplo de cidadão intelectual? 'Arte' agora é George Lucas, Britney Spears e - pff! - American Idol? O cidadão médio está num nível tão absurdamente catatônico e afásico que se entretém com reality shows e se sensibiliza 'solidariamente' por notícias de terrorismo em algum lugar qualquer? Por que ainda há fé em movimentos messiânicos (de todo o gênero, não apenas religioso); por que tanta vergonha em demonstrar dor e tanta pompa em demonstrar compaixão; por que 'solidariedade' é constantemente retratada como oposição a 'egoísmo', como se importar-se com outrem é meramente desligar-se de si próprio? Será excesso de 'neandertaloidices' nos costumes? Será excesso de sexo na televisão? Muito futebol 'excepcionalmente' em época de crise política? Muitas propagandas de celular para quem às vezes precisa mais de uma janta e um calmante? Será abuso de maniqueísmos da forma X/!X, ao estilo romântico-pleonástico de ser, "o amor é um sentimento puro e o ódio é um sentimento sujo"?

Não devemos sentir ódio? Ninguém nunca sentiu? Ninguém nunca sentiu inveja, ira, raiva, gula e todos os outros 'pecados capitais'? Devo cometer suicídio caso eu sinta tesão pela minha irmã? Até quando se irá negar a natureza humana 'ad extremum' em prol da já mencionada falácia da virtude, almejada por mendigos e socialites como um hobby de mau gosto, ao mesmo tempo em que se reafirma tais 'más condutas' em subjacências textuais, mensagens subliminares, conselhos de vozes sábias e capas da Playboy? Abomina-se o preconceito mas ri-se de piadas de negros, loiras e homossexuais - que tipo de mundo permite tal ridículo?

Para você, meu amigo, que se esnoba em graciosas citações de Lévy-Strauss e se empenha para demonstrar eloqüência jurídica, não sei se é você quem erra ou eu, que escarro na anti-vida do 'normal' como um adolescentóide rebelde dadaísta ouvidor de Dead Kennedys, igualmente afetado e vulnerável às mesmas irrelevâncias patéticas desse cercadinho de mixarias. Não nos diferenciamos da excreta por senão covalências nos carbonos; somos todos hipócritas do mais alto grau - e essa é uma asserção perfeitamente matemática. Criticar o mundo não é menos cliché do que baixar a cabeça e se reprimir no confortável conformismo de sofá - é apenas uma forma alternativa de extravasar o ódio ante a incapabilidade de usufruir do mesmo prazer obnóxio da abençoada ignorância, aquela que nos acompanha em cada minuto dessa torpe existência. Mas, como diria Heráclito (e para dar um sal a esse notório discurso carregado de preciosismo), 'aqueles que estão despertos vivem todos no mesmo mundo; aqueles que estão adormecidos vivem nos seus próprios mundos'; não é de minha estranheza reagir contra a destruição recíproca desses 'n' universos de vivência, todos desconexos entre si, irreais, como um bando de loucos drogados tendo pesadelos em um sanatório, absurdamente inconscientes da própria relevância (ou falta dela) no meio comum, ignóbeis ao extremo limite da estupidez negligente. E pois que somos feitos de barro, à Sua imagem e semelhança.

Bem vindo ao mundo moderno. Seja feliz.

E não se esqueça: somos todos grandes hipócritas. A nossa maior arte é profanar a arte.


E que mais?

"Seja a mudança que deseja ver no mundo"; assim dizia Gandhi. Provavelmente ele não se deu conta da ineficiência desse método.

14 Fevereiro 2006

A Profecia

Ex Nihil ad Infinitum, pelo Sacerdote.

O Início

No prelúdio, nada. Um vazio perpétuo ante o pré-tempo dos tempos todos; um desejo. Pressentiu-se a existência, fez-se a si própria como entidade; nasceu. Silente como prece, harmonioso como oração. Durante o consolidar, um equilíbrio ergueu a voz contra a noite do que era nulo. E um porquê exigiu duvidar de tudo.

Sabemo-nos suas crias.

A Luta

Dos sentidos veio a procura, das ciências brotou a inspiração. Definiu-se "realidade" tudo aquilo que era antagônico à crença, e "sonho" tudo aquilo que a sustentava. O céu se tornou azul quando a primeira menção a "azul" ganhou sentido, e tingiu-se de cinza quando aquele desvaneceu; desde então, a solidez da trama declarou-se inimiga da vicissitude da fé.

E a desconstrução do universo corrente se tornou escapismo involuntário ao desespero da perpetuidade.

O Martírio

E não se fez o "eu" sem o "outro", não se tornou individual o alheio; das essências, as nobres redimiram-se no compartilhar da eternidade. A razão ontológica de "existir" era agora a manifestação mais pura da vivência mútua de todas as criaturas da Roda. Quando a Dor surgiu, apenas contrastou com o Prazer; quando a Treva baixou à terra como a Mortalha, sua prole por final percebeu o valor da Luz.

E, à Morte, abandonaram o Orgulho e a Falsa Prosperidade, devolvendo o próprio sangue à Mãe que lhes insuflara Vida.

O Fim

Para a Decadência a Infinitude prossegue, seus passos serenos como o vento alísio que a criara. Pois aquilo que do vazio surge, ao mesmo vazio retorna. Ao coração que guarda, o futuro são umbras da Tormenta, eternamente distantes, tão quais convidativamente próximas; luz ou escuridão não há, contudo: o próprio tempo se dissolve nas chamas do Renascimento.

E, no epílogo, nada mais.



A vós todos, fiéis de um mundo abandonado à própria sina, minhas palavras ouvi.

20 Janeiro 2006

Jogue o Dado

E a entropia do universo subiu 437,6% como um sistema fechado que é, ou perdi a chance de ganhar na Sena, ou então ambos. Provavelmente ambos - sinto até mesmo uma aura de paradoxo ao meu redor. O fato é que o termo 'provavelmente' perdeu por completo o significado diante da surpreendente ocorrência que me deu o destino. Há exatos dois dias atrás, numas quatro e dez da manhã do dia dezoito de janeiro de dois mil e seis, enquanto jogava Diablo II com meu irmão, conseguimos a absurda e incrível perícia de encontrar quatro (sim, quatro) itens únicos em menos de... cinco minutos, três deles num intervalo ridículo de um minuto. Foram eles: Witherstring Hunter's Bow, Blood Crescent Scimitar, Snakecord Light Belt e - após a queda de Mephisto, muitas bolas de fogo e muitos tufões para esfriá-lo - The Eye of Etlich Amulet. Comemoramos com champagne.

Para quem não conhece, Diablo II é um jogo da Blizzard Entertainment lançado em 2000 que mistura uma história cliché de fim de mundo armagedônico com um cenário e personagens - não menos cliché - de caráter pseudo-hipotético-religioso, violência exacerbada, paredes lavadas com sangue e criaturas disformes, tudo isso alimentado por gráficos muito bem trabalhados (no estilo Blizzard de ser) que chegam a aterrorizar o jogador mal acostumado ou mais sensível. No jogo, há demônios e anjos (que, cá entre nós, são mais demoníacos que os diabos os quais enfrentam), há um arsenal com uma miríade de variações de armas, armaduras, amuletos e poderes mágicos, e há uma tríade de arquidemônios de dar inveja a qualquer hierarquia demonóloga: Diablo, o senhor do Terror; Mephisto (Mefisto, forma alternativa para Mefistófeles, um demônio na teologia cristã), o senhor do Ódio; e Baal (baseado em Baal, divindade adorada pelos sumérios no início da civilização, também conhecido como Belial, demonizado pela igreja cristã ortodoxa), o senhor da Destruição, ao qual foi dedicada a seqüência da história na expansão "Diablo II: The Lord of Destruction", lançada em 2001. O jogador representa um personagem que luta contra Diablo e seus irmãos, seja ele um paladino, uma feiticeira ou mesmo um necromante benevolente, e, em seu caminho, combate zumbis, esqueletos, assassinas possuídas, múmias, espíritos sombrios, insetóides asquerosos, demônios das mais variadas formas e tamanhos e, é claro, Diablo e seus colegas. Para vencer as batalhas e acumular poder, você avança em sua 'arte' adquirindo experiência, aprendendo novas habilidades, encontrando itens mágicos, contratando mercenários e viajando por diversos mundos infestados pelo caos - incluíndo uma viagem ao próprio Inferno, cujo chão permanece eternamente repleto de almas torturadas, ossos esquecidos e demônios, muitos demônios.

Em termos de enredo o jogo é pobre: a história é desconexa e absurda, os monstros e cenários são injustificavelmente nauseantes, as batalhas são permeadas de eventos ainda mais inacreditáveis (como meteoros caindo 'do céu' dentro de cavernas e flechas em chamas causando dano mínimo ou nulo em alguns casos) e a 'estratégia' - se é que há qualquer estratégia - se constitui em manipular o inventário da forma mais eficiente e derrotar hordas intermináveis de criaturas em busca de experiência, sem morrer. No entanto, os atrativos maiores - e isso é o que torna Diablo tão viciante - são exatamente esses: a variação infinita de itens mágicos torna divertida a conquista e pilhagem dos cenários, os mapas são extensos e conta com criaturas 'especiais' que mudam a cada vez que você joga e o cálculo de elementos de jogo como dano e defesa são atraentes para o melhor entusiasta da estatística. Enfim, considerando todos esses fatores, contudo, Diablo II não passa de mais um jogo quebra-mouse que, se manuseado erroneamente, irá tirar muitas e muitas preciosas horas de seu tempo útil. Tome cuidado.

E qual a surpresa afinal? Por que esse post sobre um jogo tão estúpido? Ora, é justamente sobre essa curiosa estatística da qual falei. A chance de ocorrer um item único durante o jogo é ínfima - a probabilidade é função de diversos outros fatores, mas, para efeito de cálculo, consideraremos como sendo mínimos 0,05%: a chance de obter um item único a partir de um monstro ou baú é bem menor do que isso, mesmo em monstros especiais. Suponha, então, que uma iteração exibe probabilidade de 0,05% em ocorrer o evento desejado, mais precisamente, receber um item único. Com qual freqüência as iterações ocorrem? Também é difícil de dizer, mas podemos estimar como sendo uma iteração a cada três segundos: o tempo médio para abrir um baú ou matar uma criatura qualquer, com dois jogadores experientes. Portanto, em cinco minutos, ocorrem 100 iterações. Os cálculos mostram (veja nota técnica abaixo) que, para estes valores, a infortuita chance de conseguir a proeza de quatro itens em cinco minutos é de 1 em 5.000.000, ou 0,00002%. Ainda mais impressionante, conseguir três itens em um minuto (vinte iterações) é uma chance não maior que 1 em 10.000.000 ou 0,00001%, aproximadamente a metade do valor anterior. É por isso que lhes digo, caros amigos: jamais confiem piamente no provável. Às vezes o assumido impossível acontece para surpreender o descrente.

E pensar que, diante das inúmeras possibilidades da vida, vivemos apenas uma delas... até que dessa brincadeira consegui tirar uma lição de vida.

Atentem para as alternativas, meus amigos.

11 Janeiro 2006

Ano Novo Que Me Pariu

Pois que não lhes escrevi quanto às festas. Imperdoável. Redimam-me.

Mas... nada demais que o merecesse. Sério. Apenas o que tem sido comum nos meus últimos... vinte anos. Pessoas juntas bebendo e comendo. Até os comes e bebes são os mesmos.

"Olha como ele está grande!" ...eu adoro isso. É um invariante a mais para a coleção de fatos redondos.

À parte todos os convencionalismos inner-family, foram dois fins de semana bastante úteis para minha sanidade - ou o que sobrou dela. Cada vez menos tempo e cada vez mais "tempo", o trabalho têm-me enfastiado mais do que o normal, muito possivelmente pelo baixo valor da função-utilidade sobre o propósito. O que isso quer dizer?

Enfim, antes que eu venha a depositar aqui mais letras vazias e sórdidas, feliz ano novo a todos. E um feliz Natal atrasado também. Papai Noel lhes trouxe o que pediram? Foram bons meninos durante o ano? Pagaram direitinho o mensalão?

Para o inferno com isso. A prática do 'comércio sazonal' me dá náuseas.
"Hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa, é de quem quiser..."

De qualquer forma, agradeço a todos que me escreveram e me enviaram cartões; não sabem como isso é significativo para mim. Realmente vocês não fazem idéia. Quer dizer, se meu religioso cinismo fosse menos ofensivo, possivelmente vocês acreditariam um pouco mais nesse perjúrio, mas, com ou sem essa fé, não deixa de ser verdade. Agradeço a vocês de coração. Receber bons e simbólicos votos são mais que simples demonstrações de boa vontade, são valiosíssimas expressões de afeto. E peço desculpas pela inutilidade. A minha vontade tem andado criticamente em baixa.

Esperem... estou com um cabo de rede enroscado no meu pé... pronto.
"O que vocês acharam da ferramenta? A reunião foi frutífera?" ...hm.

Exato. Estou editando isso diretamente do serviço, meio que aleatoriamente. Isto é, é totalmente aleatório, não hei de mentir. O que de primeiro surge é versificado, sem revisão, sem formatação, sem nenhuma censura. Conteúdo explícito. Bem vindo ao Santuário das Almas, o local do descanso sagrado para a sofredora mente doentia.

Aliás, trocando de assunto, alguém aqui pensa em ir ao show do U2? Noventa a meia na cadeirinha?

Pois é. Que bela forma de começar o ano - balbuciando inutilmente diante do esperancismo frívolo das festas e dos comerciais de cerveja.

09 Novembro 2005

De Gaveta

Quando o inferno começar a prestar mais atenção em você, é bom lembrar do fato que a realidade é só uma brincadeira de mau gosto, uma piada carregada de preconceito. Quando seu sangue forem lágrimas e suas lágrimas forem presentes, a absoluta ignorância é o único conhecimento pelo qual irá ansiar. Quando a luz se silenciar, tudo volta a se apagar.

E aí, quando a cabeça começar a latejar, é sempre bom desligar um pouco o cérebro e guardá-lo numa gaveta para que esfrie. (Deixá-lo exposto fará com que oxide.)

Estas linhas são apenas o sopé da montanha. O cimo se desfaz em meio às nuvens. Elas são o crepúsculo daquela janela. Por que é tão ruim observar o céu pela janela?

Eu chego a ouvir batuques, mas eles são reais demais para serem levados em conta. Está mesmo acontecendo, naquela rua, naquele local. Sem dúvidas. De forma precisa, clara, instantânea, sem mediações. Isso incomoda. Se fosse duvidoso, não incomodaria. (Mas seria duvidoso.)

Aprendi que odeio o relógio e depreendi que detesto a mudança. Observo que o indivíduo humano é excesso.

Quem lê este texto comete um estupro espiritual. Mas a vontade é violada a cada segundo mesmo.

Vou pôr meu cérebro na gaveta agora. Por favor, peço para que ninguém mexa lá.

E, se eu dormir, não me acordem.