Devido aos poucos mas significativos pedidos que recebi, posto-lhes cá o
comentário que fiz no
Kase Blog, do grande Doodie, em fevereiro deste ano. Peço para que comentem aqui o que for estritamente pertinente ao que eu disse. Tudo isso surgiu depois de um dia fervoroso, numa semana repleta de desesperos, à mesma noite na qual li a pérola que me fez parir este desatino. Um grito de jovial rebeldia a reverberar pelos átrios deste Templo.
Peço encarecidamente que leiam também o
post original (de 30 Jan 2006: não há permalinks ativados!); ainda que ambos os textos sejam leitura delongosa, não deixa de ser interessante ao pensamento ácido.
Viva a Sociedade Produtiva!A civilização contemporânea invariavelmente tornou-se, por evolução ou involução, apenas uma reformulação rudimentar da sua antiga imagem paleolítica de sobrevivência do mais forte, apenas adaptada ao novo ambiente mecânico dessa pré-ordem que estabeleceu-se como 'correto, pacífico e duradouro'. O importante não é nascer, trabalhar e morrer como a totalidade da população vive - o importante é que um indivíduo arbitrário em meio a essa população esteja satisfeito com esse padrão e, se possível, o almeje como extremo ideal de vida, deixando de lado qualquer questionamento que possa violar essa contradição. Floreamentos (não menos dúbios, pode-se dizer) como 'honestidade' e 'felicidade' são meras falácias ideológicas feitas às insinuações contra a ignorância naturalmente instaurada, mantida e incentivada pela mídia e pelo senso comum, à extrema náusea daquilo que se concebe como 'imperfeição humana'. A perfeição, por outro lado, tomou a forma mais de uma grande obsessão fútil, generalizada, qualificável em aspectos menores como 'ter a melhor bunda' ou 'ter o carro do ano', ao invés de permanecer como a antiga forma de exprimir a limitação do raciocínio analítico ou intuitivo. Uma idiossincrasia levada para o mau gosto da comodidade intelectual.
A visão cínica de um mundo cujo sentido da própria existência é vulgarmente vivenciado num cerco competitivo, no qual a fama vale mais que o mérito e a competência é substituída pela reputação, não é de surpreender quando releva-se o fato que desde o primórdio - e à parte qualquer conjectura de caráter (pseudo)científico - um indivíduo humano é intrinsecamente mais importante para si próprio do que qualquer outra coisa ao seu redor. O caráter de dependência social se dá apenas por exclusão racional da impossibilidade de sobreviver sozinho num ambiente hostil. Curiosamente, as mesmas reações instintivo-emocionais de eras passadas parecem se repetir no moderno como se pouca ou nenhuma real evolução, ao menos das faculdades mentais de autocontrole, houvesse acontecido. De fato, é indiferente: arrisco dizer que nenhuma dessas características são ou serão de auxílio para um cidadão-homem-indivíduo que sinonimiza 'felicidade' como 'prazer', acima de qualquer outra coisa. Neste sentido, a filosofia deixa de ser uma arte científica e passa a ser uma reportagem de dez minutos no Fantástico.
E como se não bastasse o absurdo da própria futilidade individual, ainda conta-se com a presença da sociedade e suas dependências identicamente desprovidas de significado, sempre ironizadas pelo cliché político do 'desenvolvimento, segurança e riqueza'. Como se desenvolvimento, segurança e riqueza não fossem formas patéticas de raciocínio circular. No mais veemente presente, da mesma maneira, as novas armas dessa 'guerrilha de virtudes' são os grandes desejos humanos - remasterizados numa versão 'diet' do dogmatismo religioso do primeiro milênio para acomodar uma sociedade 'desenvolvimentista, pacífica, versada em cultura rica, firmada em bases concretas e abençoada por Deus'. Mais do que um efeito colateral da implementação (às pressas) do capitalismo financeiro num mundo em guerra e do advento da industrialização como forma básica de produção, a comercialização dos desejos, sentimentos e emoções passa a ser um abuso contra a sã consciência humana perante a ausência de malícia ao ponto de compreensão, i.e., por mais corrupto (alguns diriam sábio) que um homem pode ser, não está apto a competir contra a 'inocência inoculada' na carótida de uma boa mais-que-informativa propaganda, um anestésico e viril discurso político ou uma 'magnum opus' nas telas do cinema, trazendo cultura e diversão a todos. (Todos?)
E com isso resolveu-se o maior empecilho para a aceitação existencial, a maior pergunta ontológica de todos os tempos foi respondida. Qual o sentido da vida? Muito simples, 'ser feliz'. Concordarão comigo negros e brancos, mulheres e homens, artistas e políticos, padres e filósofos, revolucionários e reacionários. De fato, assim tem sido desde que o primeiro neurônio fez a primeira sinapse num encéfalo primata. E para sustentar ainda mais esse truísmo do 'mundo evoluído' como inegável obra do histórico labor humano - como num pacote 'dois por um' -, conseguir 'ser feliz' está mais fácil do que nunca esteve, é mais simples do que jamais fora antes. Afinal, hoje em dia compra-se a felicidade, ganha-se o amor, conquista-se a família, consome-se harmonia enlatada num CD da Enya. A beleza está acessível na próxima edição da Caras, num batom que a Gisele usa, numa porra de silicone enfiada na bunda. O amor está nos belos casais viris e perfeitos, nas lindas famílias da novela das oito, nos perfeitos jovens enamorados na fila do cinema. A conquista se dá na resolução de desafios grandiosos como comprar um carro, ascender profissionalmente, resolver dilemas familiares de grandíssima importância. A harmonia, a felicidade, a tranqüilidade, a amizade, a beleza, o amor, tudo; todos esses sentimentos e desejos humanos podem ser comprados embrulhados em sacolas Gold ou folhas-de-flandres vulgo "lata de ervilhas", pela Internet ou pelo número de telefone, ou simplesmente na banca de jornais mais próxima, como se fosse um bem de posse transitável, um objeto de consumo, um luxo patético, de valor monetário, debitável no crédito ou na promissória, acumulável num contrato vitalício de 'existência corrente' e expansível na amortização do montante de 'vida'.
Surpreendente ou não, algumas experiências no alheio deixaram à observação fatos curiosos, cientista que sou. Se o amor é simplesmente um par de belos olhos e palavras poéticas num cartão (confeccionado em série) junto a flores de plástico (ou mesmo numa animação em Flash!), o que é da juventude promíscua que se diverte em montar casinhos de paróquia ao estilo Malhação para preencherem pedaços vazios de seus egos complexados, traumatizados, vencidos pela vida de tão cedo? Se a beleza são receitas de boa forma dadas por especialistas de um inner-circle elitista, o que são essas tendências 'desesperatistas' em perfurar a carne, alterar apêndices, tomar remédios, submeter-se a cirurgias plásticas e sacrificar a saúde, retraduzindo o desejo de receber atenção em uma forma bárbara de obsessão pelo espelho? Se o intelecto se estabelece na formação e educação graduada nos níveis de ensino 'culturalmente estáveis', fodamental-mérdio-superior, como num jogo infantil de RPG, por que usar gerundismos, citar fatos lidos na Super Interessante do mês e ler livros de auto-ajuda se torna exemplo de cidadão intelectual? 'Arte' agora é George Lucas, Britney Spears e - pff! - American Idol? O cidadão médio está num nível tão absurdamente catatônico e afásico que se entretém com reality shows e se sensibiliza 'solidariamente' por notícias de terrorismo em algum lugar qualquer? Por que ainda há fé em movimentos messiânicos (de todo o gênero, não apenas religioso); por que tanta vergonha em demonstrar dor e tanta pompa em demonstrar compaixão; por que 'solidariedade' é constantemente retratada como oposição a 'egoísmo', como se importar-se com outrem é meramente desligar-se de si próprio? Será excesso de 'neandertaloidices' nos costumes? Será excesso de sexo na televisão? Muito futebol 'excepcionalmente' em época de crise política? Muitas propagandas de celular para quem às vezes precisa mais de uma janta e um calmante? Será abuso de maniqueísmos da forma X/!X, ao estilo romântico-pleonástico de ser, "o amor é um sentimento puro e o ódio é um sentimento sujo"?
Não devemos sentir ódio? Ninguém nunca sentiu? Ninguém nunca sentiu inveja, ira, raiva, gula e todos os outros 'pecados capitais'? Devo cometer suicídio caso eu sinta tesão pela minha irmã? Até quando se irá negar a natureza humana 'ad extremum' em prol da já mencionada falácia da virtude, almejada por mendigos e socialites como um hobby de mau gosto, ao mesmo tempo em que se reafirma tais 'más condutas' em subjacências textuais, mensagens subliminares, conselhos de vozes sábias e capas da Playboy? Abomina-se o preconceito mas ri-se de piadas de negros, loiras e homossexuais - que tipo de mundo permite tal ridículo?
Para você, meu amigo, que se esnoba em graciosas citações de Lévy-Strauss e se empenha para demonstrar eloqüência jurídica, não sei se é você quem erra ou eu, que escarro na anti-vida do 'normal' como um adolescentóide rebelde dadaísta ouvidor de Dead Kennedys, igualmente afetado e vulnerável às mesmas irrelevâncias patéticas desse cercadinho de mixarias. Não nos diferenciamos da excreta por senão covalências nos carbonos; somos todos hipócritas do mais alto grau - e essa é uma asserção perfeitamente matemática. Criticar o mundo não é menos cliché do que baixar a cabeça e se reprimir no confortável conformismo de sofá - é apenas uma forma alternativa de extravasar o ódio ante a incapabilidade de usufruir do mesmo prazer obnóxio da abençoada ignorância, aquela que nos acompanha em cada minuto dessa torpe existência. Mas, como diria Heráclito (e para dar um sal a esse notório discurso carregado de preciosismo), 'aqueles que estão despertos vivem todos no mesmo mundo; aqueles que estão adormecidos vivem nos seus próprios mundos'; não é de minha estranheza reagir contra a destruição recíproca desses 'n' universos de vivência, todos desconexos entre si, irreais, como um bando de loucos drogados tendo pesadelos em um sanatório, absurdamente inconscientes da própria relevância (ou falta dela) no meio comum, ignóbeis ao extremo limite da estupidez negligente. E pois que somos feitos de barro, à Sua imagem e semelhança.
Bem vindo ao mundo moderno. Seja feliz.
E não se esqueça: somos todos grandes hipócritas. A nossa maior arte é profanar a arte.
E que mais?
"Seja a mudança que deseja ver no mundo"; assim dizia Gandhi. Provavelmente ele não se deu conta da ineficiência desse método.